"Sê paciente pois o lobo"
"O Pacífico é um ténue símbolo da morte:
o sorriso final dos céus da Califórnia
é um sorriso da assustada actriz que espreita.
Imagem do seu duro disfarce
no princípio do inferno, no meio da nossa vida
no bosque, imagem que oscila entre o mar e a mãe.
apesar de ainda sobreviver a sua petulante nota...
Este é um mundo de mistérios inúteis:
fogo de canhões e rajadas de chumbo
cujos tons são adornados mesmo na morte.
Mesmo no pó.
Sê paciente pois o lobo está sempre contigo
Ouve meu petiz o som do teu desejo
Deus surgirá de tanta ignorância
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
Sê paciente pois o lobo é paciente.
Os gritos e as mágoas da noite têm todos o seu lugar.
E sentirás o teu sangue quente na sua caverna e repousarás por fim
com óleo dos teus membros dispersos e doridos
cuja pequena sombra se deteve aqui.
Sê paciente por causa do lobo. Sê paciente
pois os seus passos leves são agora os teus, e és livre, embora despojado.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer;
as dores da noite têm todas o seu lugar trágico
metade do rosto de Deus procura a outra metade:
o prado espera pelo arco-íris para dizer deus:
as sombras esperam por ti para dizer a palavra:
as duas almofadas esperam pelo amor para salvar o mundo:
a cédula espera: o barco gela no fiorde.
O anjo espera com o seu coração na mão que dói
para te livrar do lobo e levar-te à terra do anoitecer
onde ninguém devora mas tudo se constrói:
O pisco espera a redenção das trevas
A andorinha espera pelo outono para dizer agora:
E Echo, um Herói que não diga não.
Só o sino que toca não espera
galopando com rosto de mãe pelos campos sombrios
pelos campos sombrios ao cair da noite
para limar-te até ao osso com o seu repicar brutal:
o sino não se submete ao envelhecido mar
mas ao lobo bondoso e querido
Sê paciente pois o lobo está contigo.
Ouve meu parvo o som do teu desejo.
Não te enganes, não é o mar.
O lobo é loucura mas a lua é luz.
Deus há-de sair de tanta ignorância
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
As dores da noite têm todas o seu lugar trágico
e ele encontrará o teu génio nas trevas
e devolvê-lo-á sem fiador.
Esquece os gritos da mulher do bêbado,
o mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro
Esquece o mar liso e invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
Sê paciente pois ele é muito muito muito paciente.
O prado espera pelo arco-íris para dizer deus:
as sombras esperam que digas a palavra.
As almofadas pensam que o amor salvará o mundo
Ao luar o cargueiro anda à roda de uma âncora suja.
A cédula espera: o barco gela no fiorde.
O anjo espera com o seu coração na mão que dói
para te livrar de nós e levar-te à terra do anoitecer
onde ninguém devora mas onde tudo de constrói
onde não há nenhum lobo nem a lua nem um vestígio de sangue
Sê paciente meu filho pois o lobo está sempre contigo
ouve meu petiz o som do teu desejo.
Deus surgirá de tanta ignorância:
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
As dores da noite têm todas o seu lugar trágico
e tu metade do rosto de Deus que procura a outra metade
e o coágulo do teu sangue quente repousará no fim.
Deus encontrará o teu génio nas trevas:
e devolvê-lo-á sem fiador.
As sombras esperam por ti para dizer a palavra.
Pensa que nunca terás de ler outro livro.
Terás óleo para os teus membros dispersos e doridos
cuja pequena sombra se deteve aqui...
Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente;
Os teus passos leves são agora teus, e és livre embora despojado.
O mar é tolo, crispando os lábios o dia inteiro.
Ouve meu petiz os seus passos astutos e leves
em direcção ao mar envelhecido,
ao mar tolo crispando os lábios o dia inteiro
Não prestes atenção ao mar invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
O mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro.
Não te faças ao mar invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
O pisco espera a redenção das trevas:
a andorinha anseia o outono para dizer agora:
e o Echo, um herói para dizer não.
Só o sino que toca não espera
Galopando pelos campos ao cair da noite
Vasto, com o rosto de mãe, pelos campos sombrios
para limar-te até ao osso com suave repicar
Experimenta com os teus dentes o mamilo de ferro se assim queres
Mas a tua pequena sombra deteve-se aqui.
Ouve os teus passos astutos e estranhos.
As sombras saltam: elas sabem
que vais com elas.
Os passos do lobo são os teus passos, despojado que estás agora
para esquecer os gritos da mulher do bêbado o mar
o mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro.
Esquece o rude mar invindimável
Pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados."
Malcolm Lowry
"O Pacífico é um ténue símbolo da morte:
o sorriso final dos céus da Califórnia
é um sorriso da assustada actriz que espreita.
Imagem do seu duro disfarce
no princípio do inferno, no meio da nossa vida
no bosque, imagem que oscila entre o mar e a mãe.
apesar de ainda sobreviver a sua petulante nota...
Este é um mundo de mistérios inúteis:
fogo de canhões e rajadas de chumbo
cujos tons são adornados mesmo na morte.
Mesmo no pó.
Sê paciente pois o lobo está sempre contigo
Ouve meu petiz o som do teu desejo
Deus surgirá de tanta ignorância
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
Sê paciente pois o lobo é paciente.
Os gritos e as mágoas da noite têm todos o seu lugar.
E sentirás o teu sangue quente na sua caverna e repousarás por fim
com óleo dos teus membros dispersos e doridos
cuja pequena sombra se deteve aqui.
Sê paciente por causa do lobo. Sê paciente
pois os seus passos leves são agora os teus, e és livre, embora despojado.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer;
as dores da noite têm todas o seu lugar trágico
metade do rosto de Deus procura a outra metade:
o prado espera pelo arco-íris para dizer deus:
as sombras esperam por ti para dizer a palavra:
as duas almofadas esperam pelo amor para salvar o mundo:
a cédula espera: o barco gela no fiorde.
O anjo espera com o seu coração na mão que dói
para te livrar do lobo e levar-te à terra do anoitecer
onde ninguém devora mas tudo se constrói:
O pisco espera a redenção das trevas
A andorinha espera pelo outono para dizer agora:
E Echo, um Herói que não diga não.
Só o sino que toca não espera
galopando com rosto de mãe pelos campos sombrios
pelos campos sombrios ao cair da noite
para limar-te até ao osso com o seu repicar brutal:
o sino não se submete ao envelhecido mar
mas ao lobo bondoso e querido
Sê paciente pois o lobo está contigo.
Ouve meu parvo o som do teu desejo.
Não te enganes, não é o mar.
O lobo é loucura mas a lua é luz.
Deus há-de sair de tanta ignorância
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
As dores da noite têm todas o seu lugar trágico
e ele encontrará o teu génio nas trevas
e devolvê-lo-á sem fiador.
Esquece os gritos da mulher do bêbado,
o mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro
Esquece o mar liso e invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
Sê paciente pois ele é muito muito muito paciente.
O prado espera pelo arco-íris para dizer deus:
as sombras esperam que digas a palavra.
As almofadas pensam que o amor salvará o mundo
Ao luar o cargueiro anda à roda de uma âncora suja.
A cédula espera: o barco gela no fiorde.
O anjo espera com o seu coração na mão que dói
para te livrar de nós e levar-te à terra do anoitecer
onde ninguém devora mas onde tudo de constrói
onde não há nenhum lobo nem a lua nem um vestígio de sangue
Sê paciente meu filho pois o lobo está sempre contigo
ouve meu petiz o som do teu desejo.
Deus surgirá de tanta ignorância:
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
As dores da noite têm todas o seu lugar trágico
e tu metade do rosto de Deus que procura a outra metade
e o coágulo do teu sangue quente repousará no fim.
Deus encontrará o teu génio nas trevas:
e devolvê-lo-á sem fiador.
As sombras esperam por ti para dizer a palavra.
Pensa que nunca terás de ler outro livro.
Terás óleo para os teus membros dispersos e doridos
cuja pequena sombra se deteve aqui...
Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente;
Os teus passos leves são agora teus, e és livre embora despojado.
O mar é tolo, crispando os lábios o dia inteiro.
Ouve meu petiz os seus passos astutos e leves
em direcção ao mar envelhecido,
ao mar tolo crispando os lábios o dia inteiro
Não prestes atenção ao mar invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
O mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro.
Não te faças ao mar invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
O pisco espera a redenção das trevas:
a andorinha anseia o outono para dizer agora:
e o Echo, um herói para dizer não.
Só o sino que toca não espera
Galopando pelos campos ao cair da noite
Vasto, com o rosto de mãe, pelos campos sombrios
para limar-te até ao osso com suave repicar
Experimenta com os teus dentes o mamilo de ferro se assim queres
Mas a tua pequena sombra deteve-se aqui.
Ouve os teus passos astutos e estranhos.
As sombras saltam: elas sabem
que vais com elas.
Os passos do lobo são os teus passos, despojado que estás agora
para esquecer os gritos da mulher do bêbado o mar
o mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro.
Esquece o rude mar invindimável
Pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados."
Malcolm Lowry
1 comentário:
Olá,
Nunca li nenhuma obra deste autor, mas da escassa biografia que conheço o mesmo tinha problemas com o álcool, entre outros. Como tal,não consigo perceber muito bem se de certa forma este excerto não será uma catarse.
Seja como for, não gosto de emitir juízos de valor (catarse ou não), considero este deveras profundo. Waise words. Boa escolha!:)
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