quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Vivam os acordos!
Fodam-se os clássicos
Cheios de erros ortográficos!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Antes de tornar a ler um poema
perguntar-me-ei quem sou.
Quem sou antes do retorno ao poema?
Antes do infinito serem poucas palavras
No dia calmo em que a tempestade
Aguarda que o barco se desenlace das amarras,
Onde olho o porto ainda com idade
Nessa saudade onde ainda não me esperas,
Hoje , dia em que nada me invade
A nada mais do que apontamentos nas margens,
Margens desse rio que ainda não desaguou
No mar de onde o barco ainda não desatracou,
Eu pergunto-me
quem sou.
Talvez desistir das homenagens
E das reuniões das páginas rasgadas,
Não procurar no vento o sopro indelicado
Da minha passagem. Lembrar
Apenas o que ainda não li
E abro. Abro novos livros,
O seu conforto descompassado,
Flores de vidro e de luz e um uivo
irado.
Um coro em silêncio:
Quem sou antes do retorno ao poema?

terça-feira, 5 de maio de 2009

a virtude quebrou a lâmina

conscientemente quebrei-a. incomodava-me aquele tom desajustado mas sempre dentro dos limites. um amante dos paradoxos tem um direito especial a exercê-los. a hipocrisia não é incomodativa. não o é porque nada incomoda os preguiçosos. nada me incomoda e todavia cresce e grita uma revolta íntima, intimamente dispersa sobre todos os meus espaços, disse. daí que o amante dos paradoxos dificilmente se encontre a si em si mesmo. e está lá. estou certo que lá está.

abriu a porta e olhou um imenso fogo de artifício que planava num silêncio pleno e incompreensível. disformes os desenhos que formava. uma luz monótona era uma espécie de ditado antigo indolor mas não incolor. porventura desnecessário. terminou. o silêncio desenhava os últimos traços. no lago um reflexo contraditório. com o olhar firme o amante de paradoxos constatatou nas lunares águas dos últimos resquícios: lá estou. estou certo que ali estou.

sábado, 11 de abril de 2009

"Queria eu esconder-me na montanha. Estudar a Via.
Mas não aguento, o frio - nem suporto, a fome."

Poema chinês da Dinastia Tang (fragmento Dunhuang)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

"Acção

(Goethe)"

"Não sei com que dizê-lo,
pois não está feita ainda
minha palavra"

Juan Ramón Jimenez

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"Taoísta na cabeça do tigre"

"Porque está esta barca amarrada ao velho cais?
para onde partiu então o homem nas montanhas azuis?
enquanto esperamos por ele façamos do poema uma pintura que possamos contemplar
gritos de gansos selvagens, folhas de canas secas
sombra duma pluma branca, flor fria duma campainha de água
o grou no ninho, no alto do pinheiro, a tarde"


"Pensamento primaveril"

"O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se"


"Alegre despreocupação"

"Os séculos rolam na embriaguez
em mim tudo é primavera
deitada no alto da montanha do oeste uma nuvem
indignar-me?
do verdadeiro, do falso, do bem, do mal? Limpar a poeira do rosto
poli-lo até desaparecer
hoje como ontem, sem fim, os homens"


Três poemas da autoria de Zhang Kejiu



Façamos do poema uma pintura que possamos contemplar. A definição de poema fugindo das palavras, abrigando-se nos olhos que as encontram ou que encontram. Mas, ainda que possa ser assim, quero crer que há palavras que inelutavelmente revolvem a poeira do rosto.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

"Sê paciente pois o lobo"


"O Pacífico é um ténue símbolo da morte:
o sorriso final dos céus da Califórnia
é um sorriso da assustada actriz que espreita.
Imagem do seu duro disfarce
no princípio do inferno, no meio da nossa vida
no bosque, imagem que oscila entre o mar e a mãe.

apesar de ainda sobreviver a sua petulante nota...

Este é um mundo de mistérios inúteis:
fogo de canhões e rajadas de chumbo
cujos tons são adornados mesmo na morte.
Mesmo no pó.

Sê paciente pois o lobo está sempre contigo
Ouve meu petiz o som do teu desejo
Deus surgirá de tanta ignorância
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
Sê paciente pois o lobo é paciente.
Os gritos e as mágoas da noite têm todos o seu lugar.
E sentirás o teu sangue quente na sua caverna e repousarás por fim
com óleo dos teus membros dispersos e doridos
cuja pequena sombra se deteve aqui.
Sê paciente por causa do lobo. Sê paciente
pois os seus passos leves são agora os teus, e és livre, embora despojado.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer;
as dores da noite têm todas o seu lugar trágico
metade do rosto de Deus procura a outra metade:
o prado espera pelo arco-íris para dizer deus:
as sombras esperam por ti para dizer a palavra:
as duas almofadas esperam pelo amor para salvar o mundo:
a cédula espera: o barco gela no fiorde.
O anjo espera com o seu coração na mão que dói
para te livrar do lobo e levar-te à terra do anoitecer
onde ninguém devora mas tudo se constrói:
O pisco espera a redenção das trevas
A andorinha espera pelo outono para dizer agora:
E Echo, um Herói que não diga não.
Só o sino que toca não espera
galopando com rosto de mãe pelos campos sombrios
pelos campos sombrios ao cair da noite
para limar-te até ao osso com o seu repicar brutal:
o sino não se submete ao envelhecido mar
mas ao lobo bondoso e querido
Sê paciente pois o lobo está contigo.
Ouve meu parvo o som do teu desejo.
Não te enganes, não é o mar.
O lobo é loucura mas a lua é luz.
Deus há-de sair de tanta ignorância
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
As dores da noite têm todas o seu lugar trágico
e ele encontrará o teu génio nas trevas
e devolvê-lo-á sem fiador.
Esquece os gritos da mulher do bêbado,
o mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro
Esquece o mar liso e invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
Sê paciente pois ele é muito muito muito paciente.
O prado espera pelo arco-íris para dizer deus:
as sombras esperam que digas a palavra.
As almofadas pensam que o amor salvará o mundo
Ao luar o cargueiro anda à roda de uma âncora suja.
A cédula espera: o barco gela no fiorde.
O anjo espera com o seu coração na mão que dói
para te livrar de nós e levar-te à terra do anoitecer
onde ninguém devora mas onde tudo de constrói
onde não há nenhum lobo nem a lua nem um vestígio de sangue
Sê paciente meu filho pois o lobo está sempre contigo
ouve meu petiz o som do teu desejo.
Deus surgirá de tanta ignorância:
não como uma caixa de surpresas mas como uma árvore
transformada pelo delírio em pai choroso.
Ele dirá que isto e aquilo há-de acontecer.
As dores da noite têm todas o seu lugar trágico
e tu metade do rosto de Deus que procura a outra metade
e o coágulo do teu sangue quente repousará no fim.
Deus encontrará o teu génio nas trevas:
e devolvê-lo-á sem fiador.
As sombras esperam por ti para dizer a palavra.
Pensa que nunca terás de ler outro livro.
Terás óleo para os teus membros dispersos e doridos
cuja pequena sombra se deteve aqui...
Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente;
Os teus passos leves são agora teus, e és livre embora despojado.
O mar é tolo, crispando os lábios o dia inteiro.
Ouve meu petiz os seus passos astutos e leves
em direcção ao mar envelhecido,
ao mar tolo crispando os lábios o dia inteiro
Não prestes atenção ao mar invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
O mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro.
Não te faças ao mar invindimável
pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados.
O pisco espera a redenção das trevas:
a andorinha anseia o outono para dizer agora:
e o Echo, um herói para dizer não.
Só o sino que toca não espera
Galopando pelos campos ao cair da noite
Vasto, com o rosto de mãe, pelos campos sombrios
para limar-te até ao osso com suave repicar
Experimenta com os teus dentes o mamilo de ferro se assim queres
Mas a tua pequena sombra deteve-se aqui.
Ouve os teus passos astutos e estranhos.
As sombras saltam: elas sabem
que vais com elas.
Os passos do lobo são os teus passos, despojado que estás agora
para esquecer os gritos da mulher do bêbado o mar
o mar insolente crispando os lábios o dia inteiro
estridente como fábricas de triturar vidro.
Esquece o rude mar invindimável
Pois aqueles que bebem os seus abismos são os afogados."

Malcolm Lowry

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Prevejo apenas o início. Estou certo do fim.