terça-feira, 16 de março de 2010

Mantém-se desnecessariamente luminoso o elogio da técnica. Ele traduz-se. Refém do ódio ao hábito não se levanta.



Patenteio as miraculosas mãos. Dito um religioso suspiro, um ruído esquecido num plano divino, uma orquestração retida, sustida, amansada. O bater de asas já ditou o futuro e talvez por inépcia vingativa e precipitada hoje o futuro anuncie e defina o bater das asas. Fecha o livro. A palavra não está escrita.

A filha dá-lhe a mão: Pai, não me disseste tu que toda a palavra que se anuncia é maldita?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

præ-fatio

Aprecie-se a insensatez própria das palavras. A sua relação pouco determinada com o tempo.
O ser-se insensato porque se é único. Sobrevivem ao jugo demasiado perceptível do tempo,escapam-se-lhe como ondas impróprias entre as nuvens e, no entanto, conseguem estabelecer em si prefácios e posfácios, observações em contexto, perspectivas abrigadas nos ponteiros. E há um tempo certo para te o dizer.
Um tempo certo para te o escrever. Tempos diferentes. Definem, redefinem, obrigam, cobram, direccionam, substanciam até. No profundo serão lume brando brincando com o vento. A interacção tem o toque modificador, alterna e altera, mas há palavras que reestruturam a própria interacção, como se aos beijos de lábios pressionados se juntassem beijos sem lábios que alteram a própria pressão dos lábios entrelaçados nos beijos.
No serão profundo, brando, o lume, brinca com o vento. Gestos dóceis e animados na folha inanimada que esvoaça agora. Arde quente e precisa. Inexacta mas necessária. Jamais completa. Inevitavelmente repleta. Insensatez plena de sentido sem sentido nenhum.
Tudo isto é desinteressante, mas. Mas, dizia eu, o poema prossegue o espaço vazio, faz-nos notar a página em branco como o tempo necessário para dizer a palavra da página seguinte. E isto é interessante. Um tempo certo para te o dizer. Um tempo certo para te o escrever. Em branco. Em branco aguardo.

Fechou a porta. Trémulo, o candeeiro é um estranho na escuridão. Ele senta-se.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Só porque sim. Afinal é para isto que servem os blogues and stuff. Porque sim.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um olhar sobre o passado a relembrar o futuro. Consciente do facto de isto ser daqueles algos que tantos já disseram que não se saberá já quem primeiramente o disse, digo-o ainda. Digo-o desde logo porque muitas vezes não dizemos certas coisas por muitos as terem dito já. E o oposto será também verificável. E relembramos o futuro que visualizámos no passado pensando nas palavras que ainda ninguém escutara. Sons na pedra que ainda ninguém lera. Tudo é irrepetível apenas uma vez. Ninguém mais atinge o cume pela primeira vez vez nenhuma. Vez vez nenhuma. Tudo é irrepetível apenas uma vez, dizia. Claro que apenas o conhecido é repetível. E será preciso saber tudo para se saber ser irrepetível. Mas talvez eu perceba melhor hoje um certo fascínio pela ignorância. À ignorância estão reservadas muitas mais primeiras vezes. O conhecimento assalta-nos a originalidade, faz-nos saber o quão especiais não somos, o quão únicos já tantos foram como nós. Talvez tudo isto seja também um elogio do amor. Amamos alguém que nunca se repete ainda que façamos muitas vezes a mesma coisa, ainda que queiramos que um monstro imutável nos assalte e se repita ad aeternum. Dizermos: és irrepetível. Não mudes nunca. Devo estar a repetir o Miguel Esteves Cardoso, é bem provável. Não o leio mais. Não quero repetir ninguém...